Moura dos Santos: «Há muita música que é igual a FRALDAS DESCARTÁVEIS»

Manuel Moura dos Santos, jurado do La Banda, explica porque é que os vencedores de concursos como Ídolos e The Voice Portugal nunca vingaram na música.

28 Abr 2019 | 17:10
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(entrevista publicada na edição 1674 da TV 7 Dias)

16 anos depois da sua estreia na primeira edição de Ídolos,é mais bonzinho no La Banda?

É muito difícil… a média de idades dos concorrentes é baixa [15 a 22 anos]. Nós temos de ter algum cuidado com a abordagem. Embora eu ache que esta ideia generalizada que se criou e que tem a ver também com o tipo de televisão que se faz hoje… há uma nova classe, os influencers, que eu não faço ideia do que seja! Vi, no outro dia, dois a falarem, e fiquei impressionado porque eram os dois analfabetos. Puro e duro! E eu pensei ‘isto são influencers de quê? Influenciam quem?’. E têm centenas de milhares de seguidores…

No La Banda nota essa diferença em relação ao que projetam as redes sociais, que é muito fácil ser famoso?

Chegar à porta é mais fácil. Passar o portão é que continua a ser difícil. Mas é mais fácil lá chegar. Há 30 e tal anos, para ser músico… a malta nem dinheiro tinha para comprar instrumentos. Hoje é tudo mais fácil. Chega mais gente ao portão mas o funil é o mesmo. Uma das vantagens do La Banda é que não temos os conhecidos afamados cromos.

É um alívio?

É.

Foi um dos aspectos que o levou a aceitar ser jurado do la Banda?

Eu gosto muito de trabalhar com a Fremantle [produtora do programa]. Há uma seriedade de processos, de trabalho que eu aprecio imenso. Para mim é fácil saber que aquilo tem credibilidade. Sei que não me vou meter num produto menor, sem interesse nenhum. Eu tenho alguma dificuldade em trabalhar com crianças. Esta coisa de Kids isto e aquilo, para mim, não vale.

Porquê?

Porque acho que a pior coisa que se pode fazer a um miúdo é criar-lhe expectativas que quase de certeza não se confirmam no futuro. Um miúdo de 6 ou 7 anos nem a voz tem formada.

E a personalidade também não.

Não tem e sobretudo não tem a voz formada. Nós já tivemos esse fenómeno de pequenos cantores em Portugal que, quando chegam à idade adulta… adeus, não está lá nada. Aquela voz que toda a gente achava engraçadíssima morreu! Criar essa expectativa numa criança e, depois, ela chega aos 13, 14 e, afinal, aquilo não se confirma, acho de uma violência!

E depois há o lado dos pais!

Que projetam nos filhos as ambições, ansiedades e até questões financeiras. Eu acho isso terrível, acho de uma violência enorme sobre os miúdos. Tenho muitas dúvidas sobre esse tipo de concursos.

Alguma vez foi convidado para ser jurado desse tipo de formato?

Fui abordado uma vez e nem sequer equacionei o assunto. Não quero! Acho que é de uma responsabilidade enorme dar um ‘não’ ou um ‘sim’ a uma criança. Não quero fazer isso. Acho que isso deveria até ser regulado.

Deveria mas não é.

Mas deveria ser. Isso não farei nunca. Crianças, não.

Nunca se fartou dos talent shows?

Temos momentos em que há um cansaço extremo. No La Banda não mas no Got Talent vimos tanta gente… uma pessoa não fica farta mas há um cansaço… ao fim de um dia de castings a saturação é enorme. E nós temos de superar isso porque temos de ter a mesma perspectiva em relação ao primeiro e ao último que aparece.

Referia-me mais à fase do Ídolos. Não chegou a um momento em que pensou ‘não quero mais ser esta personagem’?

Não. Ainda hoje encontro miúdos que passaram pelo Ídolos, veem ter comigo e dizem-me ‘estou-lhe reconhecido porque aquilo que você me disse ajudou-me imenso’. Ao longo destes anos todos há muita gente que vai lá – não é que isso me deixe especialmente satisfeito mas acontece – e quer especificamente ouvir a minha opinião. A não ser que me tenha esquecido de alguém, não me enganei em nenhum dos concorrentes a quem disse ‘acho que não tens vida para isto’. Há um caso, por acaso, que é a Aurea, de quem eu gosto imenso (risos)! A Aurea foi recusada no Ídolos mas eu fui o único que lhe dei um voto positivo. E ela ainda se lembra!

Perder um talent show, é garantia para ter uma carreira? À exceção do Diogo Piçarra, todos os que consolidaram carreiras, como a Luísa e o Salvador Sobral, a Carolina Deslandes, foram todos concorrentes que não ganharam.

O Filipe [Pinto, vencedor da terceira edição de Ídolos, em 2009]…

Essa era outra questão que lhe ia colocar.

Ele está ali num limbo difícil de explicar. A música que ele faz não encaixa na base de fãs que ele tem. E ele não conseguiu chegar aos fãs da minha geração ou imediatamente abaixo da minha. E é muito complicado porque ele não quis facilitar, e eu percebo isso, mas faz um tipo de música que é muito adulta. Ele é um cantor extraordinário, tem um talento enorme mas está ali encalhado num processo que é muito complicado de gerir.

O Manuel geriu a carreira dele.

Sim, durante uns anos. É um miúdo extraordinário, um ser humano fantástico! Mas ele fez uma opção artísticas que não tem sido fácil de gerir.

Aconselhou-o a ir por uma via mais pop?

Nós falámos várias vezes e eu dei-lhe a entender que ele fazia uma música demasiado adulta para a base de fãs que tinha. Mas eu não dou ordens ao artista. Ele faz aquilo que bem entender. Ele vai ter de fazer uma escolha senão, como músico profissional, vai ter muitas dificuldades. Mas não sei o que aconteceu com gente que saiu de outros concursos.

Do The Voice Portugal também não. São mais os que não ganham.

Porque estes concursos têm uma característica que a malta ainda não entendeu, embora estes já percebam isso melhor do que os anteriores. É importantíssimo criar empatia com o público. O público não vota no melhor, vota naquele de quem gosta mais, por quem sente empatia.

Na última edição do The Voice Portugal, ganhou a Marvi, que tinha uma história de vida complicada. Acha que isso cria mais empatia com o público?

Cria empatia mas não cria na indústria! Porque o problema é este: quando factores extra musicais interferem neste tipo de competição por norma as pessoas sentem-se motivadas a votar, não porque ele é o melhor mas porque a história é a mais interessante, a mais compungente, a que mais nos impressiona. A indústria não contrata ninguém porque o cantor tem uma história de vida difícil. Isso é conversa!

Mas, para fazer televisão, esse lado também é necessário.

Não. É preciso criar empatia com as pessoas. mas isso não chega. Não há nada que obrigue a indústria a contratar ou a fazer carreira com um artista só porque ele tem este ou aquele background. Isso não tem influência, depois.

O público sabe disso mas o público não pensa como a indústria. Quer é ver um programa de televisão.

Não mas impressiona-se, comove-se. Aconteceu várias vezes no Ídolos eu ser um bocadinho mais duro com um concorrente e a votação dele ir por aí acima. As pessoas comoviam-se…

Mas o Manuel tinha consciência disso. Pensava ‘vou apertar com este gajo e as pessoas vão ficar a adorá-lo!’ ?

Não no início. Nós tentávamos não fazer isso mas é óbvio que o júri também manipula o público. São as regras do jogo. É um programa de televisão!

Houve algum concorrente que tenha chegado a fases finais em que o Manuel tenha pensado ‘isto é só mesmo a história do coitadinho’?

Confesso que não. A única exceção – e faço-lhe até essa homenagem pública porque não era apreciador do talento dele – e tem uma carreira, é o Diogo Piçarra. Nunca acreditei muito no Diogo e ele tem uma carreira. Quando ele ganhou a quinta edição do Ídolos, eu não estava nada convencido de que ele era o melhor. Mas ganhou! Em todo o caso, veja bem que, da quarta edição, a única que tem carreira é a Carolina [Deslandes] e ficou em terceiro. O cantor de que tenho mais pena – e tem tudo a ver com ele – é o Nuno Norte. Tem a ver com a pessoa, com as opções de vida que fez. O Nuno era um cantor inacreditável!

 

«Ninguém vive de fazer um concurso de televisão»

 

Ser jurado paga bem?

Eh pá, paga normalmente. é como a publicidade. Há 20 anos pagava mais do que paga hoje. Trabalhar na área do entretenimento em Portugal não é tão compensador como era. Há 20 anos pagava-se melhor. Sobretudo antes da crise.

No primeiro Ídolos, por exemplo. Era assim um ordenado chorudo?

Não. Nunca foi chorudo mas, em termos comparativos, era melhor do que é hoje. Porque havia havia mais dinheiro para produzir este tipo de formatos…

E havia mais pessoas a ver televisão generalista.

E calculo que a publicidade tinha valores mais interessantes do que tem hoje. Ninguém vive de fazer um concurso de televisão. As pessoas têm de trabalhar e eu faço as minhas coisas. Organizo concertos, tenho estado em Angola…

Já não tem a sua empresa de management, a MS Management?

Não. Tenho a Atitude Events.

Mas tem estado, nos últimos anos, mais focado em Angola.

Tenho. Vou lá levar agora o Rui Veloso. Tenho feito muita coisa com artistas portugueses lá.

Mas ainda gere a carreira de alguém?

Não. Agora estou a fazer um disco com o Nuno Guerreiro. As minhas relações com os artistas foram tão longas – o Rui 18 anos, o Jorge Palma 17 anos, a Ala dos Namorados perto de 20 – que já havia necessidade eles mudarem e de eu mudar. De eles terem outra abordagem, gente com outras ideias… A gente vai-se encostando uns aos outros e, depois…

Foram divórcios amigáveis?

Sim, mantemos relações impecáveis. Foram opções e porque a minha ausência seria prejudicial para eles. Isso revelou-se sobretudo no caso do Jorge [Palma] e da Ala dos Namorados. No caso do Rui, deixei de trabalhar com ele porque tinha ido para angola. Hoje, se me perguntar se voltaria a fazer aquilo, tenho dúvidas.

Porquê?

Porque a gente vai envelhecendo e há coisas que já não quer fazer.

Já não tem pachorra?

Exatamente.

Não deixa de ser curioso que nem o Jorge Palma nem o Rui Veloso tenham feito alguma coisa de consubstancial nos últimos anos.

O Rui não faz um disco desde 2005. O Palma tem um projeto com o Sérgio Godinho [nr: Projeto Juntos, resultou num álbum lançado em 2015]. Sobretudo a ausência de um disco de originais é mais notória no Rui. E é isso que alimenta um bocadinho a carreira dos artistas. Mas hoje fazer discos também não tem o peso que tinha há uns anos.

Mas é preciso lançar música! Bem, não é preciso… o Rui Veloso não precisa de lançar música.

Convém, não é? Porque as gerações mais recentes, se ele continuar a não apresentar nada no mercado, dificilmente o têm como referência. O Rui é demasiado importante para que isso lhe aconteça. E acho que ele devia manter isso até porque vai alimentando e as pessoas vão tomando conhecimento, sobretudo as gerações mais novas.

Mas acha que é porquê? Falta de motivação?

Não faço a mínima ideia, não falo com ele sobre isso há muito tempo. De vez em quando falamos mas nem sequer falamos de trabalho. Ele deve achar que não é importante, provavelmente.

 

«Eu tinha uma ligação forte com o meu irmão»

 

Falemos do Sporting. Disse, em 2010, no 5 Para a Meia-Noite, “não há azeite no Sporting”. Os anos de Bruno de Carvalho fizeram-no mudar de opinião?

Não. Eu fui apoiante dele na segunda eleição. Foram anos muito conflituosos. Acho que ele abriu frentes de guerra em múltiplas direções e, na altura, aquilo começou a ser muito pesado. Mas nódoa negra do consulado dele é a invasão da academia [de Alcochete]. Eu não tenho qualquer reserva moral em dizer que ele estava envolvido naquilo. Provavelmente não estava e admito que não esteja. Eu acho é que ele, por ser presidente da SAD do Sporting e por ser presidente do clube, é responsável pelo que se passou. Por aquilo estava sob a responsabilidade dele!

Esse factor fez com que fosse mais fácil associar Bruno de Carvalho a esses acontecimentos?

Não. Isso são coisas que a justiça irá resolver. Ou não. Mas há uma coisa: a desvalorização que ele fez daquilo prejudicou-o muito.

Porque é que acha que isso aconteceu?

Não sei. Não estou dentro da cabeça dele. Sei que ele o fez. A desvalorização que ele fez daquilo e da gravidade que aquilo tinha foi extremamente prejudicial para ele. Eu retirei imediatamente o meu apoio.

Continua a pagar as quotas do seu irmão [o irmão gémeo de Manuel Moura dos Santos morreu há 16 anos]?

Sim.

É a sua forma de preservar a memória do seu irmão?

E aquilo que ele gostava do Sporting.

Quem é que gostava mais, o Manuel ou o seu irmão?

Ele era mais habitué do estádio do que eu. Eu tinha uma vida que também não proporcionava isso. A maioria das vezes os jogos coincidiam com concertos e eu não estava em Lisboa.

Todos os gémeos têm uma ligação umbilical. Vocês tinham uma ligação desse género? Sei que na sua família toda a gente é do Sporting.

É tudo do Sporting. Só tenho um enteado que não é do Sporting. É a ovelha negra da família, ronhosa (risos)!

É benfiquista?

É! Eu adoro-o mas o gajo é benfiquista. Não há grandes discussões, primeiro há respeitinho (risos)! Eu… (pausa)… eu tinha uma ligação forte com o meu irmão. Tínhamos vidas muito diferentes. A minha vida era de um perfeito saltimbanco… mas eu da minha vida pessoal não gosto nada de falar.

Então deixe-me chateá-lo com mais uma pergunta. Casou-se pela terceira vez há sete anos.

Foi em 2011, vai fazer oito anos.

Em casa é o oposto do que vemos na televisão? É um marido docinho?

Não sou docinho nem fofinho. Gordinho, sou mas fofinho, não propriamente. Se o casamento existe, é porque funciona.

E tem funcionado para si.

Muito, muito bem. Adoro a minha mulher e tenho imensas saudades dela. Ela está em Luanda. Ela tem a vida profissional dela baseada lá. Mas funciona tudo bem, felizmente.

O seu filho, Miguel, participou na sexta edição do Ídolos. Ele desistiu logo do sonho da música?

Não. Ainda andou ali dois ou três anos, em que devia andar a estudar e não esteve, agora voltou, está a acabar o curso. está a trabalhar, também. Eu também lhe disse ‘olha que isto, para ser músico, é preciso estudar muito’.

E ele também viu como era a vida dos músicos.

Ele continua ligado, vai fazendo umas coisitas mas acho que isso morreu um bocadinho. Ele está mais preocupado com a faculdade e a carreira profissional.

Os mais novos têm algum interesse na música?

Não. Todos cantam bem. O do meio é até o que canta melhor. O meu enteado canta muito bem. Eu, aliás, se calhar um dia perco a cabeça e faço um disco com os quatro. Só para a família.

E o Manuel também canta?

Não. Vou ser só produtor (risos)!

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Texto: Raquel Costa | Fotos: Zito Colaço | Agradecimentos: Sporting Clube de Portugal

 

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