Malato não vai celebrar o Natal: «Há coisas das quais a gente não se consegue libertar»

Um ano e meio depois da morte do pai, José Carlos Malato revela que ter feito as pazes com a mãe (que é Testemunha de Jeová) foi um dos melhores acontecimentos de 2019.

16 Dez 2019 | 9:50
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Após a morte do pai, em maio de 2018, José Carlos Malato viveu uma das fases mais turbulentas da sua vida. Incompatibilizou-se com a mãe, muito devido às crenças religiosas desta (a mãe de José Carlos Malato é testemunha de Jeová, não celebra aniversários nem Natal).

Os meses passaram, o apresentador da RTP1 fez as pazes com a progenitora e consigo mesmo. Celebrar esta quadra é que ainda não vai acontecer… embora haja presentes para um membro da família muito especial.

Este ano andou pelo mundo!

Este foi o ano de andar pelo mundo e o próximo também vai ser. Em janeiro já vamos voltar. Temos muitos destinos, Goa, novamente Estados Unidos… muitos destinos onde é importante conhecer as comunidades portuguesas e mostrar Portugal a partir desses locais.

O que retira de melhor deste programa [Portugal no Mundo]?

Ir ao encontro das pessoas, conhecê-las na sua excelência, para elas é um motivo de orgulho enorme. Faz sentido ser a RTP a fazer este formato. Temos recebido muitos elogios e muitos pedidos para irmos aos países onde as pessoas estão. Esta altura do Natal é sempre emotiva, apesar de eu não celebrar o Natal.

Vai continuar sem celebrar o Natal?

Vou, vou. Há coisas das quais a gente não se consegue libertar. E eu não consigo. Não há nada a fazer. Não consigo libertar-me de não ter, durante tantos anos, celebrado o Natal. Não tem significado para mim. É sempre um constrangimento, por causa da história das prendas, depois não me apetece ir, tenho sempre montes de trabalho nesta altura, depois não posso estar com a minha mãe porque ela não celebra. É sempre uma trapalhada, o Natal! E, ainda por cima, não estando já o meu pai, ainda menos vontade tenho de fazer o que quer que seja. É um dia normal. Falava com a minha mãe outro dia e dizia-lhe: ‘ó mãe, podia vir cá jantar, como um dia normal!’. E ela: ‘não, não, não! Estou ótima, estou cá em casa’ (risos).

E a sua irmã?

A minha irmã festeja porque tem a miúda [neta]. Agora temos um bebé novo, a filha do meu sobrinho Fábio, a Maria Benedita. Tem 4 meses, é linda!

E a sua mãe nem por uma bisneta celebra o Natal?

Nada. Zero. Ela não celebrou com a minha sobrinha, não o vai fazer com ninguém. Nem Natal, nem aniversários. Não vale a pena. Aliás, ela amanhã [13 de dezembro] faz anos e eu disse-lhe ‘mãe, podia dar-me de almoço’, e ela ‘o que é que vens cá fazer almoçar?’ (gargalhada)

Já encara isso com humor.

Repare, são 50 anos disto! Não é brincadeira. É difícil mas, hoje em dia, eu e a irmã brincamos com a situação. Irrita-me ir a um centro comercial, ver toda a gente numa azáfama e não ter o mínimo significado. Mas gosto de estar ao pé das outras pessoas. Na minha profissão é importante que o Natal dos outros seja bom porque o meu também é.

Porque não dá de si só no Natal.

Eu prefiro dar presentes – e faço muito isso com a minha família, ajudo muito – mas é ao longo do ano.

 

«Sofremos o luto sozinhos em vez de termos dado as mãos»

 

Como tem sido a experiência com a sua sobrinha neta?

Muito bom! Ela é linda de morrer! tem sido muito giro porque nós criámos um grupo que tem o nome dela e isso acabou por nos aproximar. Todos os dias, a minha sobrinha, mãe dela, alimenta aquele grupo. Eu tenho noção, desde que ela nasceu, de todas as indumentárias que ela usou, a primeira vez que bebeu água… A minha sobrinha Ana é muito competente na ligação que faz entre a filha e o resto da família. A minha mãe também participa e adora! Por isso, o Natal tem alguma graça! Não compro presentes para mais ninguém mas para a bebé sim.

Uma das suas grandes conquistas em 2019 foi fazer as pazes com a sua mãe?

Foi. Eu precisava muito…como diz aquela canção do filho do Caetano Veloso, ‘todo o homem precisa de uma mãe’. E eu ter normalizado as relações com a minha mãe foi fundamental para a minha higiene mental e também para a questão dos afetos. Cada um tem uma forma de fazer o luto e eu acho que todos nós tivemos um luto, cada um por si. Cada um sofreu o luto sozinho em vez de termos dado as mãos.

Foi a maneira dela lidar com a morte do seu pai.

Foi a primeira vez que perdemos alguém tão próximo. O que é que cada um fez? Cada um foi para o seu canto, levou a sua dor e tentou resolver as coisas dessa maneira. Foi um erro. Tenho lido muito sobre o luto e o luto é assim mesmo. Finalmente, cada um já teve o seu tempo, passou um ano e acho que a passagem do ano fez com que nos reaproximássemos. Da minha mãe porque da minha irmã estive sempre muito próximo.

Recorde aqui a primeira parte da entrevista

Texto: Raquel Costa | Fotos: Zito Colaço e Arquivo Impala

 

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